A arte de saber chorar

Saber chorar não é para todos.

Prova disso são alguns atores das novelas portuguesas quando supostamente há grande cena dramática e escorrem lágrimas dos olhos mais limpos e brilhantes do mundo.
Eu imagino alguém da produção a por rápido umas gotas de soro fisiológico na atriz e a gritar: “rápido, rápido, rápido, antes que escorra!”

Graças a Deus, eu nasci com esse dom.

Toda a minha vida ouvi frases como “e é preciso chorar?!” “olha olha, vale de muito ficares assim…”.
Pois é meus jamigos, a verdade é que vale mesmo.

crazy-eyes-orange-is-the-new-black

Eu fui cedo para o infantário porque a minha mãe tinha de trabalhar (sim, o mesmo infantário do “Calhou cocó” e Como conquistar um homem) e ela diz que eu chorava tanto que os vizinhos iam lá ver o que se passava. Nunca gostei de ir à escola. Nem com 6 meses.

Seria hipócrita da nossa parte, mulheres, não admitir que, quando queremos, usamos as variadas armas que temos. Regra geral resultam. Mas tenho cá para mim que chorar é a mais infalível de todas.

Há 3 razões em particular que me fazem chorar:

1- A pinga.

Fico ainda mais dramática. Declaro-me às pessoas a chorar, mando mensagens de voz ao meu irmão a dizer que se for preciso vendo os meus pais, etc, etc, etc.

2 – Fazer as sobrancelhas.

Não vamos falar muito sobre isto, só sei que é uma zona sensível ok? Faz-me espirrar e chorar muito.

3 – As adversidades da vida.

É aqui que entra a arte. E eu faço proveito dela desde cedo.

Quando era pequena, a minha mãe foi operada ao útero.
Deve ter sido há muito muito tempo porque já nem ela própria se lembra de quando o tirou.

Lembro-me perfeitamente que era o Hospital de Santo António no Porto e que não conseguia chegar ao balcão.

Íamos todos visitar  a minha mãe (eu, o meu pai e o meu irmão) quando me dizem não podia entrar porque ainda era muito pequenina.

Antigamente eu era muito mais (como é que eu posso dizer isto sem ofender o meu ego?) ambiciosa, orgulhosa, teimosa, do que sou agora, infelizmente.

Olhei para a pessoa que estava comigo (acho que era o meu irmão) e pensei, lá vai ter de ser.
Invoquei às minhas capacidades e chorei. E devo ter chorado bem porque passados 10 segundos lá ia eu toda contente pelas escadas de incêndio de mão dada.

Taystee5

 


Um outro bom exemplo aconteceu há pouco tempo, na Queima.

Antes de sairmos de casa, eu e a Raquel (aquela pessoa na faculdade que faz valer a pena as propinas que pagamos) tivemos a “brilhante” ideia de sairmos de casa com apenas o Cartão de Cidadão, o bilhete da Queima e 2€.

Isto porque o jantar já estava pago e achamos que seria uma boa noite para começar a poupar dinheiro.

Fomos com tudo para o jantar, até brilhantes na cara pusemos.

Já agora, os brilhantes são uma boa tática. Melhor que ir para a rua com um golden retriever bebé. #ficadica

Depois do jantar tivemos outra excelente ideia; separámo-nos.
Eu fui para a queima a achar que ainda ir ver James Morrison e ela foi para a baixa.

Acabei por ir com outros colegas para a queima (o Paiva, a Isabel e o Xico). Pormenor importante na história: o Paiva não tinha bilhete e tivemos de ir para a fila da bilheteira que era maior que a dos provadores da Bershka em saldos.
Qual a minha moral que passei o tempo todo a mandar vir com o rapaz “Quem é que vem para a queima sem bilhete?! Podias ter dito que alguém comprava. Agora vais pagar mais! Para não falar que temos de estar aqui na fila  por causa da sua excelência!” 

Finalmente fomos para a entrada. Entram todos primeiro, a Inês Melo fica para último.

Saquei do bilhete, a senhora passou o leitor e disse. “oh menina, isto não está a dar.”

Decidi abrir o bilhete e…

ERA DO DIA ANTERIOR.

ta ta ta taaaan

Mesmo à Inês Melo.

A senhora ficou a olhar para mim e eu fiquei a olhar para o bilhete.

2º pormenor interessante: o meu telefone estava morto. Tinha bateria mas não ligava. Mesmo aquelas situações que acontecem quando uma pessoa precisa.

Ponto de situação:

1 – Não conseguia comprar outro bilhete com os 2€ que tinha na carteira

2 – Não tinha telemóvel para avisar ninguém

3 – Estava num estado que não conseguia voltar para casa sozinha

Comecei a chorar.

A senhora ficou a olhar para mim. Disse-lhe que não tinha dinheiro e mostrei o telemóvel. E também jurei que tinha comprado o bilhete. E tinha mesmo.

Não tenho noção do tempo que ficamos ali as duas até que ela se virou para mim e disse:

“Vamos fazer assim. Vais parar de chorar, vais sair e vais entrar pela outra porta. Mas fazes de conta que não aconteceu nada!”

Conforme ela disse aquilo, endireitei-me, agradeci 1000x e fiz exatamente o que ela me mandou. Pelo caminho cruzo-me com um senhor polícia que me disse:

“Que lhe aconteceu, menina?”

Ignorei-o completamente. Continuei a caminhar com o nariz empinado que nem rainha da noite.

Fui revistada por uma senhora polícia que também se questionou “Uma menina tão brilhante a chorar?“.

Limitei-me a sorrir como se não tivesse os olhos vermelhos e do tamanho de duas melancias.

E lá foi ela, cheia de graça, de cabeça levantada e a sorrir como se nada fosse. Só faltava acenar tipo miss queima 2017.
Cheguei à senhora que me tinha sido indicada, mostrei o bilhete e deixou-me entrar.

Acabei por nem ver James Morrison e vir embora “cedo”,  já quando “me sentia melhor”.

Quando criar o meu canal no youtube faço um tutorial para aprenderem a chorar.
De nada.

Amelodramática.

ps: qual é a primeira coisa que fazemos quando nascemos?

COINCIDÊNCIA?
Não me parece….

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s